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Ophir Loyola é pioneiro em transplantes de córnea e único Banco de Olhos do Pará

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A preocupação com a estética muitas vezes supera a atenção à saúde e pode trazer danos irreversíveis. Um trauma ocular ocasionado pelo uso de uma lente de contato imprópria, comprada sem orientação médica, levou o eletricista Lívio Reis, 28, a entrar na fila de espera por um transplante de córnea. Prática comum principalmente entre os jovens até uns dez anos atrás, o uso de lentes de contato para fins meramente estéticos expôs diversas pessoas a sérios riscos pela aquisição do produto em camelôs.

No caso de Lívio, o problema foi gerado pela manipulação indevida das lentes. Também influenciada pela tendência da época, a irmã mais nova do eletricista tentou usar o par de lentes que ele havia comprado sem o seu conhecimento e acabou por danificá-las, sem, no entanto, avisar o irmão. Ao colocar as lentes Lívio sentiu um ardor no olho direito, mas pensou ser normal, e assim como na hora da compra, não procurou um especialista.

Após uma semana, a visão do olho direito ficou totalmente sensível à claridade. O rapaz que tinha apenas 19 anos à época só conseguia sair na luz do dia com o auxílio dos óculos escuros. Passados 15 dias as dores tornaram-se insuportáveis. Foi quando finalmente Lívio resolveu procurar um oftalmologista, que diagnosticou e tratou a úlcera no olho direito com medicamentos e colírio.

A lente de contato rígida indicada pelo especialista não corrigiu a cicatriz ocasionada pela lesão. A visão do lado direito ficou embaçada e a única solução possível era o transplante de córnea. Começava então uma espera que levaria quase oito anos por um doador.

Um problema com a atualização dos dados pessoais de Lívio acabou atrasando mais a cirurgia. Mas na última semana veio a boa notícia. “Recebi uma ligação para comparecer ao Banco de Olhos do Hospital Ophir Loyola. Quando cheguei aqui me informaram que a cirurgia já seria realizada no dia seguinte. Tomei um susto”, contou o eletricista.

A responsável técnica pelo Banco de Olhos do HOL, médica Natércia Pinto Jeha, explica que ainda existe uma significativa resistência de familiares em doar córneas de parentes falecidos. “O detalhe que precisa ser melhor entendido pela sociedade é que a retirada desses tecidos só ocorre quando for constatada a morte cerebral do doador”, ressalta.

Em 2016 foram 121 córneas captadas no Pará, número recorde de tecidos captados no próprio estado desde a implantação do Serviço, em 1978, no Hospital de Pronto Socorro, até a transferência para o Ophir Loyola, em 2001.

O hospital também se tornou pioneiro, em 2008, na realização do transplante de córnea pelo Sistema Único de Saúde (SUS).  Em setembro de 2010, o serviço chegou ao 100º transplante por meio de equipe comandada pela doutora Natércia. O paciente foi um adolescente de 17 anos, Rones França, natural de Canaã dos Carajás, sudeste do estado.

De 2008 até 2016 foram realizados 278 transplantes de córnea no HOL, e somente de janeiro a março deste ano foram 13 procedimentos, mais da metade do total dos 19 enxertos realizados no ano passado.

O Banco de Olhos do Ophir Loyola é o único do Pará e atua no recolhimento, preservação e destinação de córneas em consonância com a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do Pará para atendimentos da rede particular, pelo SUS e por convênio. A instituição também realiza transplantes e oferece ambulatório.

Doação – Familiares de doadores potenciais que vierem a óbito podem decidir pela doação legal das córneas até seis horas após o falecimento. Quando confirmada a doação, o Banco de Olhos é acionado para fazer a captação e o armazenamento do tecido, que tem um prazo máximo de aproveitamento de catorze dias.

O material recolhido passa por um processo rigoroso de controle. A córnea é avaliada em um aparelho que checa a presença ou não de corpos estranhos, infecção ou lesão, antes de ser retirada do globo ocular.

Após serem processadas em ambiente estéril e colocadas em frascos de conservação, além de avaliadas novamente pelos enfermeiros, as córneas são reavaliadas pela equipe médica para checar se o tecido realmente tem todas as qualidades para ser liberado para o transplante.

Feitos todos os exames e obtidos os resultados adequados, o Banco de Olhos entra em contato com a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO) do Pará, que verifica os pacientes na fila de espera.

Qualquer pessoa, na faixa etária entre dois e 80 anos, pode doar as córneas. Há critérios específicos de exclusão, como pacientes portadores de HIV e portadores de Hepatite B e C.  Até duas pessoas podem ser beneficiadas com uma única doação.

O enfermeiro Rodrigo Pinto explica que a retirada dos órgãos do doador, de acordo com a legislação brasileira, exige a realização de exames como a artereografia e eletroencefalograma para confirmar que não haja fluxo sanguíneo no cérebro do doador e atestar sua morte cerebral.  Outros exames bioquímicos e gráficos são realizados também para assegurar a viabilidade dos órgãos para doação.

“É importante engrandecer o ato porque a morte de um ente querido é um momento muito doloroso para a família. Mas se não for autorizada por nenhum familiar, a retirada dos tecidos não pode ser feita de forma alguma. Contudo, alguém que está à espera de um transplante também perde a oportunidade de enxergar novamente”, ressalta o enfermeiro.

O transplante de córnea pode corrigir doenças como ceratocone, que provoca alteração na curva da córnea e eleva o grau do paciente, além da perda da visão causada por traumas e infecções pelo uso de lentes de contato, por exemplo. No Pará, a principal indicação de transplante em pacientes mais idosos é ceratopatia bolhosa (alteração na córnea causada por uma complicação de cirurgia de catarata) ou a distrofia de Fuchs (uma doença ocular que pode levar à perda parcial da visão).

O procedimento é realizado em ambiente hospitalar por meio do microscópio cirúrgico, e demora entre uma hora e uma hora e meia. Remove-se a córnea danificada e, no local, é suturado o tecido doado. No local é aplicado um tampão, que é retirado no dia seguinte, quando já começa a utilização dos colírios.

“A recuperação do transplante de córnea dura de três meses a um ano, porque os pacientes levam em torno de 16 pontos que são retirados lentamente. O paciente volta a enxergar no primeiro dia de forma embaçada e vai melhorando gradativamente com a retirada dos pontos”, afirma Natércia.

No Pará, o transplante de córnea também é realizado no Hospital Bettina Ferro, Clínica Cinthia Charone (planos privados e SUS), além de algumas clínicas privadas credenciadas para transplante de córnea. Em Santarém, por meio do SUS e da rede privada, é feita a captação de córneas para transplantes.

Por Leila Cruz

2 Comentários

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